Jogo de cintura, influência política, reorganização das contas e cortes de gastos nas secretarias pode ser a medida certa para se equilibrar na crise
A crise financeira que atinge os municípios tocantinenses escancara a fragilidade administrativa e a ausência de planejamento de boa parte das gestões municipais. De norte a sul, prefeitos recorrem a cortes drásticos, fusões de secretarias e demissões em massa para tentar equilibrar as contas públicas — medidas que, embora apresentadas como “necessárias”, reforçam o clima de instabilidade e a sensação de que falta criatividade para enfrentar o problema.
Abaixo, o retrato do momento vivido por cada uma das principais cidades:
🟠 Palmas
- Situação atual: A capital, que possui o maior orçamento do estado (R$ 2,7 bilhões previstos para 2025), anunciou a fusão de 10 secretarias e novas medidas de contenção de gastos.
- Contexto: O prefeito Eduardo Siqueira Campos, eleito após uma disputa acirrada, tenta equilibrar a pressão política e a herança do pai, Siqueira Campos, com o desafio de administrar uma máquina pesada e em retração.
- Clima interno: A falta de soluções inovadoras e o corte em cargos e gratificações têm gerado insatisfação até entre aliados. O discurso de austeridade, embora recorrente, começa a ser visto como sinal de desorganização administrativa.
- O prefeito Eduardo Siqueira Campos (Podemos) extinguiu 12 entidades e órgãos da Prefeitura de Palmas, entre elas fundações, secretarias e agências. A partir desta quarta-feira (15), as competências dos extintos serão incorporadas a outras secretarias.
- A Medida Provisória também determina a exoneração de titulares de 17 pastas e traz novas momeações. O documento foi publicado na edição do Diário Oficial de Palmas de terça-feira (14).
🔵 Gurupi
- Situação atual: A prefeitura demitiu cerca de 50 servidores e reduziu contratos como forma de conter despesas.
- Gestão: A prefeita Josi Nunes, reeleita, enfrenta desgaste político e críticas pela falta de diálogo com o funcionalismo.
- Percepção: A sensação é de que as ações são mais emergenciais do que planejadas, evidenciando um governo que reage aos problemas em vez de antecipá-los.
🟢 Paraíso do Tocantins
- Situação atual: A gestão aplicou um corte de 30% nos salários do prefeito, vice, secretários e cargos comissionados.
- Cenário financeiro: O município registrou queda milionária na receita, especialmente após a redução dos repasses do ICMS e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
- Percepção pública: As medidas foram apresentadas como “necessárias”, mas têm gerado críticas e dúvidas sobre a capacidade do governo de reorganizar as finanças sem paralisar serviços.
🔴 Porto Nacional
- Situação atual: O alerta soou ainda em julho, quando a prefeitura anunciou exonerações em massa, cortes salariais e rescisão de contratos.
- Resultado: Mesmo após as medidas, o município segue com dificuldades para cumprir compromissos básicos e honrar pagamentos.
- Avaliação: A população enxerga o cenário como reflexo de uma crise de gestão que se arrasta há meses, sem perspectiva de solução concreta.
🟣 Araguaína
- Situação atual: Embora ainda mantenha estabilidade relativa, a cidade já sente os reflexos da queda de receita e atrasou salários de contratados e comissionados em alguns meses.
- Ações em curso: O prefeito Wagner Rodrigues aposta na reestruturação do Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) da Educação para ajustar gastos e manter os pagamentos em dia.
- Perspectiva: Mesmo com obras em andamento — muitas bancadas por emendas federais —, a gestão admite que pode reduzir contrapartidas municipais ou até suspender serviços. O temor é que Araguaína seja o próximo epicentro da crise.
📉 Causas da crise
A retração nas receitas municipais resulta de uma combinação de fatores:
- Redução dos repasses estaduais de ICMS;
- Queda nos valores do FPM;
- Diminuição da arrecadação própria das prefeituras;
- Redução no envio de emendas parlamentares federais, que mantinham serviços e obras.
Embora essas emendas não possam ser usadas para pagar salários, a falta delas paralisa projetos, afeta o funcionamento das secretarias e reduz o fôlego administrativo dos municípios.
⚫ Cenário geral
O panorama é de crise disseminada. As principais cidades do Tocantins — de Palmas a Porto Nacional, passando por Gurupi, Paraíso e Araguaína — enfrentam queda de arrecadação, aumento das despesas obrigatórias e falta de planejamento estratégico.
Sem soluções criativas e com decisões de emergência se repetindo, o Tocantins parece viver um período de paralisia política e financeira, em que o remédio da contenção de gastos pode estar apenas adiando um colapso maior.






