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TCE barra contratação milionária de Bruno & Marrone em Axixá por suspeitas de irregularidades e risco fiscal

Tribunal vê fragilidades no processo, valor acima do praticado e despesas incompatíveis com a situação financeira do município

O Tribunal de Contas do Tocantins determinou a paralisação imediata da contratação do show de Bruno & Marrone pela Prefeitura de Axixá do Tocantins, no extremo norte do Estado. A decisão, emitida pela Segunda Relatoria e publicada nesta quinta-feira (11), suspende o contrato de R$ 1,1 milhão firmado por inexigibilidade de licitação com a empresa WBM Produtora de Eventos Ltda. A apresentação estava marcada para 14 de março de 2026, durante o tradicional Enduro de Axixá.

A Corte justificou a medida com base em “indícios de irregularidades graves”, riscos ao erário e inconsistências nos documentos apresentados pelo município. Para os auditores, o cachê supera valores pagos pela mesma atração em outras cidades, inclusive maiores e com maior capacidade financeira, o que gerou questionamentos sobre a razoabilidade da contratação em um município com cerca de 10,7 mil habitantes.

Processo fragilizado e documentos ausentes

O levantamento técnico da 2ª Diretoria de Controle Externo identificou falhas estruturais, como a falta de documentos obrigatórios previstos na Lei nº 14.133/2021. Entre os itens ausentes estão o Documento de Formalização de Demanda, o empenho e a pesquisa de preços.

O Estudo Técnico Preliminar foi classificado como “insuficiente”, e os analistas apontaram divergências entre o Termo de Referência e o contrato firmado. Também foram encontrados documentos assinados fora da ordem legal e a emissão da inexigibilidade antes do parecer jurídico – inversão considerada irregular pelo Tribunal.

Outro ponto crítico é a previsão de pagamento integral antes da realização do show. Na avaliação da Corte, essas cláusulas beneficiam a contratada, já que, em caso de cancelamento por culpa do município, o valor pago não seria devolvido, abrindo margem para enriquecimento sem causa.

Município em crise e gasto considerado incompatível

A decisão destacou ainda a situação fiscal delicada de Axixá. O município acumula R$ 1,39 milhão em restos a pagar processados, apresenta despesa com pessoal de 62,47% da Receita Corrente Líquida — acima do limite permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal — e convive com baixos índices de cobertura vacinal, falhas na atenção básica e alta taxa de mortalidade infantil.

Também foram identificadas pendências superiores a R$ 9,8 milhões em contribuições previdenciárias e consignações não repassadas.

Nesse cenário, o TCE considerou o gasto de R$ 1,1 milhão como “desproporcional e arriscado para o interesse público”.

Medidas impostas pela Corte

O prefeito deverá suspender todos os atos relacionados à Inexigibilidade nº 010/2025 e interromper qualquer execução financeira vinculada ao contrato. Além disso, Axixá deve encaminhar ao Tribunal a íntegra do processo administrativo em até cinco dias úteis e comprovar o cumprimento da decisão em 24 horas.

O relator reforçou que a intervenção visa preservar a legalidade e assegurar maior rigor na aplicação dos recursos públicos.

Prefeitura afirma que evento continua no calendário

Em comunicado oficial, a Prefeitura de Axixá declarou que cumprirá integralmente a decisão do TCE. A administração afirmou que o processo ficará suspenso até que todos os esclarecimentos solicitados sejam apresentados.

A gestão municipal defendeu o valor acordado, alegando que o cachê decorre da agenda dos artistas e da logística necessária para deslocamento até Axixá, que não possui aeroporto. Esse fator, segundo a nota, aumenta o custo final.

A administração também destacou que o Enduro de Axixá permanece confirmado: apenas o procedimento licitatório está suspenso. Conforme o município, o espetáculo é parte importante da movimentação econômica local, gerando demanda para comerciantes, ambulantes e setor hoteleiro.

Reações e comparações

O contrato de R$ 1,1 milhão gerou forte repercussão na cidade e em toda a região. Moradores questionaram a pertinência do gasto em meio às dificuldades fiscais. O valor é similar ao pago pela Prefeitura de São Paulo no Réveillon da Avenida Paulista, um dos maiores eventos do país.

Em 2025, Bruno & Marrone receberam R$ 784 mil no São João de Pernambuco e R$ 704 mil no Festival de Inverno de Garanhuns, ambas cidades de maior porte e com infraestrutura consolidada para grandes shows.

O prefeito Auri Wulange (União Brasil) havia anunciado a atração após uma enquete pública, que apontou a dupla como favorita entre opções como Jorge & Mateus e Wesley Safadão. A controvérsia reacendeu o debate sobre despesas com shows em municípios de menor estrutura — prática que já foi alvo de intervenções judiciais em outros estados.

Foto de Tomaz Xavier

Tomaz Xavier

Tomaz da Silva Xavier Formado em Pedagogia pela UFPI Jornalista de profissão há 22 anos Apresentador de TV e Radialista

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